Vincent Willem van Gogh ainda provoca perguntas mais de um século após a sua morte. Muita gente o resume ao estereótipo do pintor “louco” que arrancou a própria orelha e morreu esquecido, mas essa caricatura empobrece uma vida complexa. Nascido em 30 de março de 1853 em Groot‑Zundert, Holanda, filho de um pastor calvinista, Van Gogh cresceu num ambiente religioso rígido e melancólico. Ainda criança tinha dificuldade de fazer amigos, achou nos livros companhia e desenvolveu compaixão pelos oprimidos. O mito da loucura esconde a sua formação intelectual, suas lutas internas e uma produção de cerca de 800 quadros em apenas dez anos. Ao revisitar sua trajetória em ordem cronológica, veremos como a arte refletiu cada fase de sua vida e que, apesar das crises, ele não era um mero “louco”, mas um gênio incompreendido.

 

 

Infância e juventude (1853‑1880)

Van Gogh passou os primeiros anos em uma família calvinista de classe média. O pai era pastor e a mãe cuidava dos seis filhos. Como jovem sonhador, Vincent admirava histórias sobre o sofrimento dos pobres e a injustiça social. Aos 16 anos foi trabalhar na Galeria Goupil, em Haia, empresa que negociava obras de arte. A experiência o conectou ao mundo artístico e lhe deu uma renda considerável. Ao contrário do mito de que era um outsider, ele trabalhou como assistente de revendedor de arte por seis anos e chegou a ser transferido para filiais em Londres e Paris. Essa vivência o aproximou de colecionadores e da cena cultural, mas o emprego o entediava porque preferia discutir arte com os clientes.

Em Londres, Vincent se apaixonou pela filha do proprietário da casa onde morava. Após ser rejeitado, sofreu seu primeiro colapso emocional. Deixou o trabalho e tentou seguir a vocação do pai ingressando no seminário teológico, mas foi reprovado por falta de base. Ainda em busca de sentido, tornou‑se pastor leigo nas minas de carvão de Borinage, na Bélgica. Ali mergulhou na vida dos mineiros, dividia seu dinheiro com os doentes, tratava ferimentos e lia a Bíblia aos trabalhadores. Sua empatia com os pobres impressionava os superiores, mas foi demitido por ser “exageradamente sentimental”. Esse período também marcou o começo de sua arte: para expressar o que sentia pelas pessoas, iniciou desenhos e estudos de anatomia. Através dessas privações, surgiram as primeiras imagens sombrias que retratavam camponeses e operários.

Descoberta da arte e os anos sombrios (1880‑1885)

Em 1880, com apoio financeiro do irmão Theo, Van Gogh decidiu “serei pintor”. Matriculou‑se em cursos livres de anatomia e perspectiva em Bruxelas, trocou cartas com o amigo Anton van Rappard e exercitou cópias de obras famosas. Sem ingressar numa academia oficial, desenvolveu técnica autodidata e absorveu influências de artistas realistas como Jean‑François Millet. Em Haia, recebeu apoio do pintor Anton Mauve e começou a retratar pescadores e camponeses; escrevia ao irmão que queria “pintar a vida, não quadros”. Nessa época abrigou Sien, uma prostituta grávida, demonstrando sensibilidade social que também se refletia nas telas.

Suas pinturas desse período têm paleta escura e pesada. Em Os Comedores de Batata (1885), as cores austeras e o claro‑escuro sublinham a dureza da vida dos camponeses. O artista definia a obra como “uma verdadeira pintura de camponeses”. Influenciado por Millet, buscava dignificar o trabalho humilde através de linhas vigorosas e atmosferas sombrias. Essas escolhas não eram gratuitas: refletiam sua própria melancolia, a experiência entre mineiros e a sensação de exclusão social. Em 1885 seu pai morreu repentinamente e o luto agravou sua instabilidade emocional. Apesar das dificuldades, o período consolidou sua vocação e lhe deu domínio sobre desenho e técnicas de luz e sombra.

 

Os Comedores de Batata

 

Paris e o encontro com os impressionistas (1886‑1888)

Em fevereiro de 1886, Theo convidou o irmão a morar em Paris. O encontro foi decisivo: a capital reunia pintores que questionavam as convenções acadêmicas. Van Gogh matriculou‑se brevemente em academias, mas abandonou as aulas porque tinha ideias próprias. A mudança de ambiente transformou sua paleta. Theo lhe apresentou a vanguarda impressionista e pós‑impressionista; ele conheceu Claude Monet, Auguste Renoir e Camille Pissarro, além de conviver com John Russell, Emile Bernard e Henri de Toulouse‑Lautrec. Longe de ser um ermitão, mantinha rede de amigos e tinha profundo interesse intelectual: sabia holandês, falava francês e inglês e lia alemão.

 

 

As cores puras e pinceladas curtas do impressionismo inspiraram Van Gogh a abandonar os tons escuros. Ele escreveu que sua cor preferida era o amarelo, “como um grande sol”. Surgiram Autorretrato (1887) e o Retrato de Père Tanguy (1887‑88), nos quais as pinceladas moduladas e a luz vibrante já prenunciam o seu estilo. Ao mesmo tempo descobriu a gravura japonesa, que estava na moda em Paris; Vincent e Theo chegaram a comprar mais de 500 obras japonesas. A estética oriental, com cores planas e contornos definidos, influenciou seu uso de cores vivas e composições dinâmicas. Em dois anos produziu cerca de 200 quadros. Essa produtividade desmente a imagem de um artista desorganizado: apesar de pintar rápido, planejava cuidadosamente as obras e pensava sobre elas antes de realizar o trabalho. A vida boêmia parisiense, no entanto, o cansava; buscava um refúgio mais calmo e sonhava em formar uma comunidade de artistas comprometidos com a arte, não apenas com os cafés.

 

 

Arles, Gauguin e a Casa Amarela (1888)

Seguindo o conselho do amigo Toulouse‑Lautrec, Van Gogh mudou‑se para Arles, no sul da França, em fevereiro de 1888. A luminosidade provençal e as cores dos campos o fascinaram; ali pintou Vista de Arles com LíriosGirassóis e Quarto em Arles. Os girassóis permitiram explorar tons de amarelo — sua cor predileta — e celebrar a luz intensa. Em Arles alugou uma casa que batizou de Casa Amarela e convidou Paul Gauguin para morar com ele. Theo garantiu o sustento de ambos para que pudessem trabalhar. Gauguin aceitou, mas as personalidades se chocaram: Gauguin era autocentrado, e Vincent, sensível. Discussões sobre arte se tornaram violentas.

Em 23 de dezembro de 1888 uma briga culminou no episódio mais famoso de sua vida: Gauguin saiu para dormir em um hotel e, na manhã seguinte, soube que Van Gogh cortara um pedaço de sua própria orelha e a enviara a uma conhecida. O ato chocou a cidade e alimentou lendas. Na verdade, foi uma manifestação extrema de sua fragilidade mental. O pintor foi levado ao hospital, onde pintou o Autorretrato com Orelha Enfaixada (1889). O mito de que uma prostituta pediu sua orelha é fruto de romances como Lust for Life; não há provas históricas.

Nesse período, Van Gogh também escreveu ao irmão expressando seu sentimento de exclusão: “O que sou aos olhos da maioria? Uma não entidade… muito bem, mesmo que isso fosse verdade, quero que o meu trabalho mostre o que vai no coração de um excêntrico”. A carta revela consciência de que a sociedade o considerava estranho, mas ele almejava ser compreendido pela arte. Apesar das crises, continuou produzindo. As estrelas se tornaram tema recorrente; ele afirmou querer “expressar a esperança por meio de alguma estrela”. Essa busca pela esperança norteou sua obra mais célebre.

Hospício em Saint‑Rémy‑de‑Provence (1889)

Após o episódio da orelha, Van Gogh voluntariamente pediu a Theo para interná‑lo no hospício de Saint‑Rémy, na Provença. A única condição era poder continuar pintando. Transformou seu quarto em ateliê e, mesmo vigiado, produziu mais de 200 quadros e centenas de desenho. O confinamento agravou sua ansiedade: o entorno austero e a repetição de crises tornaram as pinceladas mais onduladas e as formas retorcidas. As paisagens que viu da janela, com ciprestes e o céu noturno, inspiraram A Noite Estrelada (1889) — uma visão espiralada do cosmos em que a vila dorme sob um céu em turbulência.

 

 

O quadro, reproduzido acima, sintetiza seu equilíbrio instável: as estrelas e a lua gigantes sugerem esperança, mas o céu gira em espirais inquietas. A árvore vertical liga terra e céu, imagem talvez de sua busca espiritual. Especialistas destacam que essas linhas ondulantes não são necessariamente uma tradução automática da loucura, como se costuma dizer, mas resultado de escolhas estéticas calculadas para criar efeito. Van Gogh escreveu a Theo que queria representar a noite “cheia de energia” e não de forma naturalista. Enquanto pintava, sofria crises de epilepsia e possível transtorno bipolar. Estudos médicos apontam que ele tinha episódios de euforia e depressão características de transtorno bipolar e que um histórico familiar de doença mental pode ter contribuído. Seus ataques eram acompanhados de alucinações, mas entre eles mantinha períodos de lucidez. O tratamento incluía medicamentos como brometo, e ele evitava certas tintas por serem tóxicas. Em suas cartas a Theo narrava os sintomas e o alívio que a pintura proporcionava: escrever e pintar eram sua terapia.

Auvers‑sur‑Oise e os últimos dias (1890)

Em maio de 1890, cansado da reclusão, Van Gogh deixou Saint‑Rémy e foi para Auvers‑sur‑Oise, perto de Paris, sob os cuidados do médico homeopata Paul Gachet. A vila possuía paisagens bucólicas e ele recuperou momentaneamente o ânimo. Em setenta dias produziu cerca de 75 pinturas e mais de cem desenhos, incluindo Campo de Trigo com Corvos A Igreja de Auvers. Apesar da aparente vitalidade, ainda sofria crises; a notícia de que Theo enfrentava dificuldades financeiras o abalou. Em 27 de julho de 1890, enquanto pintava ao ar livre, atirou contra o próprio peito. Morreu dois dias depois, aos 37 anos, segurando a mão de Theo e dizendo que “a miséria não tem fim”. Muitos tentaram criar teorias conspiratórias de assassinato, mas as pessoas mais próximas — Theo, o Dr. Gachet e o amigo Emile Bernard — sempre acreditaram que foi suicídio. Não é verdade que morreu totalmente desconhecido; nos últimos anos já participava de exposições coletivas em Paris e Bruxelas e tinha seus quadros comentados pela imprensa. 

 

 

Reconhecimento póstumo e os mitos que o cercam

Van Gogh vendeu apenas um quadro em vida — A Vinha Vermelha, em 1888. Apesar disso, não viveu sempre na pobreza extrema. Quando jovem comerciante de arte recebia salário maior que o do pai e, durante sua fase como pintor, Theo lhe enviava um subsídio regular. O problema era sua incapacidade de administrar dinheiro e as despesas com materiais e cafés boêmios. Outro mito diz que ele era iletrado; entretanto, dominava quatro idiomas, lia muitos livros e escrevia cartas eloquentes. Sua correspondência com Theo é composta por cerca de 800 cartas, as primeiras e as últimas encontradas com ele no dia de sua morte. Nelas discutia técnica, emoções, planos e descrevia os esboços das obras, deixando um testemunho único do seu processo criativo e revelando que planejava cuidadosamente cada tela.

A ideia de que era um artista sem amigos também é enganosa. Além de Theo, mantinha ligações com Emile Bernard, John Russell e outros artistas parisiense. A exposição “O círculo interno de Van Gogh” mostrou que ele cultivava uma rede de pessoas simpáticas ao seu redor. Também se afirma que suas pinturas são frutos de frenesi irracional. Embora trabalhasse rápido, ele planejava as composições e anotava ideias; dizia que as telas mais bonitas eram as que sonhava enquanto fumava seu cachimbo. No asilo pintava sob observação, mas ainda assim considerava a pintura uma forma de autocontrole. 

Outro mito popularizado por filmes é que Campo de Trigo com Corvos foi sua obra final. Documentos apontam que Tree Roots ou Farms foram provavelmente os últimos quadros, conforme registrado pelo cunhado Andries Bonger. A romantização do quadro com corvos reforça a imagem do artista atormentado, mas a verdade é mais complexa: até o fim, ele buscou novas composições e perspectivas. Por fim, a fama não surgiu do nada. Após sua morte, a cunhada Johanna van Gogh‑Bonger herdou cerca de 400 telas e centenas de desenhos. Viúva e com um filho pequeno, ela vendeu o apartamento e transformou a nova casa em pousada, onde exibia os quadros. Organizou pequenas exposições, persistiu em promover a obra e, em 1905, conseguiu recursos para uma grande mostra em Amsterdã que atraiu colecionadores e museus. O sucesso dessa exposição iniciou a “lenda Van Gogh”. Sem ela, o mundo poderia ter perdido obras como A Noite EstreladaGirassóis Os Comedores de Batata

 

 

Conclusão

Vincent van Gogh não era simplesmente “louco”, mas um homem sensível, erudito e atormentado por transtornos psíquicos. Ele lutou contra depressão, possíveis crises epilépticas e transtorno bipolar. Essas doenças não definem sua essência, embora influenciassem seu comportamento e o levassem a extremos. A arte foi seu meio de sobrevivência e expressão: o amarelo ensolarado de Girassóis reflete a esperança nascida em Arles, enquanto as espirais de A Noite Estrelada demonstram o turbilhão interior durante o confinamento. Cada período de sua vida aparece nas telas — a paleta escura da juventude mineira, a luminosidade impressionista de Paris, os tons vibrantes da Provença, as formas turbulentas do hospício e os campos de Auvers. 

 

Chamar Van Gogh de gênio incompreendido não é romantizar a loucura, mas reconhecer que o artista questionava sua própria posição no mundo, sentia‑se excêntrico e, mesmo assim, buscava mostrar o que tinha no coração através da pintura. A história de Van Gogh também revela o impacto do apoio social: sem Theo, ele não teria se dedicado à arte; sem Johanna, as obras não teriam chegado ao público. Ao revisitar sua vida cronologicamente, percebemos que a “loucura” era apenas um aspecto de um ser humano complexo, cuja produção artística continua inspirando por revelar a beleza e a dor de existir.