Katsushika Hokusai é um nome que atravessou séculos, fronteiras e estilos artísticos. Nascido em 1760, em Edo (atual Tóquio), sua vida foi marcada por uma busca constante de reinvenção. Conhecido mundialmente por "A Grande Onda de Kanagawa", Hokusai criou muito mais do que uma imagem icônica: construiu uma narrativa visual sobre o Japão, suas crenças, suas paisagens e seu cotidiano. A partir dos quadros decorativos inspirados em suas obras, é possível explorar suas fases de forma cronológica e entender como a arte e a vida se entrelaçaram.
Infância e influências iniciais (1760-1780)
Three Birds Perched on Branches, 1830.
Hokusai nasceu em uma família humilde e foi adotado ainda pequeno por um fabricante de espelhos. Cresceu em meio a artesãos e teve acesso desde cedo a imagens religiosas e ilustrações decorativas. Começou a trabalhar como aprendiz de gravador aos 14 anos, e esse contato direto com a xilogravura moldou profundamente sua abordagem artística. Ele se formou em um período em que o mercado de impressões estava em expansão, o que o ajudou a encontrar espaço para se desenvolver.
Início da carreira: entre impressões e influências (1780-1800)
Aos 19 anos, tornou-se aluno de Katsukawa Shunshō, especialista em retratos de atores de kabuki. Nessa fase, sua produção era mais limitada a encomendas e convenções do mercado editorial. Mas a inquietação já dava sinais: ele começou a assinar obras com diferentes nomes, algo que faria por toda a vida. Mudava de nome a cada nova fase como forma de renascimento artístico.
Hokusai também estudou as escolas Kano e Tosa, e, diferentemente de muitos artistas japoneses, demonstrava interesse pela arte ocidental. Acredita-se que tenha tido contato com gravuras holandesas contrabandeadas, o que pode ter influenciado sua perspectiva tridimensional e seu uso de sombra.
A maturidade e a arte da natureza (1800-1830)
Com o passar dos anos, Hokusai se afasta do universo do teatro e volta seu olhar para o cotidiano japonês. Nessa fase, ele se dedica a temas como paisagens, flores, aves e cenas populares. Obras como:
... demonstram essa transição. Seu foco está na observação minuciosa da natureza, capturando em papel a efemeridade da vida com leveza e precisão. As flores e pássaros, temas centrais em gravuras japonesas (kacho-e), são trabalhados por ele com sofisticação visual que transcende o mero decorativo.
Durante esse período, Hokusai também lançou manuais de desenho como o "Hokusai Manga" e começou a ser reconhecido por sua originalidade. Seu trabalho passou a influenciar outros artistas japoneses e se tornou referência para estudantes da arte.
O auge: a Grande Onda e as paisagens do Japão (1830-1840)
The Great Wave off Kanagawa, 1831.
Aos 70 anos, Hokusai entra em sua fase mais prolífica e consagrada. É neste período que ele cria a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", da qual faz parte a icônica:
"A Grande Onda" não é apenas uma imagem impactante: é um retrato do confronto entre homem e natureza. A onda ameaça engolir os barcos, enquanto o Monte Fuji permanece, ao fundo, sereno e eterno. Essa tensão entre efemeridade e permanência está no coração do pensamento japonês.
Outros quadros que capturam essa fase mais contemplativa e paisagística incluem:
Essas obras apresentam uma variedade cromática sutil e um desenho cada vez mais refinado, onde o espaço vazio tem tanto peso quanto o preenchido. A influência do zen-budismo é evidente.
A figura feminina: o cotidiano em destaque (1830-1845)
Ao contrário de muitos artistas da época, que retratavam mulheres de forma idealizada ou sensualizada, Hokusai optava por figuras femininas envolvidas em atividades comuns. Quadros como:
... revelam um olhar mais humanizado e realista. A mulher japonesa de Hokusai não é musa distante: é personagem ativa de um cotidiano simples, vestida com um kimono sem ostentação, muitas vezes sozinha, refletindo ou caminhando.
Também é importante lembrar que essa fase coincidiu com um período de dificuldades financeiras. Hokusai viveu de forma itinerante, com pouco conforto, mas manteve sua produção intensa. Chegou a morar com a filha, que também era artista.
Os últimos anos e a obsessão pela perfeição (1845-1849)
Hortência e Andorinha Horizontal
Já quase cego e com mais de 85 anos, Hokusai continuava criando. Dizia que apenas aos 100 anos alcançaria a verdadeira maestria. Continuava desenhando aves, plantas e cenas de rua. Quadros dessa fase incluem:
Aqui, notamos um traço mais livre e uma sensibilidade aguçada, mesmo diante das limitações físicas. O foco não está mais na inovação, mas na repetição contemplativa dos mesmos temas que sempre o fascinaram. Sua morte ocorreu em 1849, e em suas últimas palavras ele pedia por "mais cinco anos de vida para se tornar um verdadeiro artista".
Hokusai hoje: arte japonesa que decora e inspira
A popularização dos quadros decorativos inspirados em Hokusai mostra como sua obra resiste ao tempo. Seja em um quadro da "Grande Onda", em uma gravura de pássaros, ou em uma mulher japonesa com kimono, o que vemos é mais do que decoração: é uma ponte com a história e a filosofia do Japão clássico.
Essas peças, hoje acessíveis e com frete gratuito, tornam possível levar um fragmento da alma de Hokusai para dentro de casa. São lembretes visuais de que a arte é, acima de tudo, uma extensão da vida.
Conclusão
Katsushika Hokusai foi um artista moldado pelo tempo, pelas perdas, pela religião e pela busca incessante de evolução. Sua obra, rica em fases, estilos e temas, permanece viva não apenas em museus, mas também em paredes de lares modernos. Ao escolher um quadro decorativo de Hokusai, não se está apenas comprando arte: está se conectando com uma vida que se reinventou até o fim.